Esporte Inspiração

Mulheres, futebol e arbitragem: conheça as craques amapaenses que estão batendo um bolão

Por Joyce Batista

Faz tempo que a ideia de que futebol é um esporte só para homens ficou no passado, mas ainda hoje as mulheres são minoria menos valorizada dentro dele. Para elas, é muito mais difícil realizar sonhos dentro dessa área esportiva porque são muitas as barreiras. Felizmente, elas seguem resistindo e representando a classe feminina dentro e fora de campo, além de incentivar outras mulheres a ingressarem no esporte. Isso tudo aqui, em terras tucujus!

O Bem Tucuju foi conhecer algumas representantes femininas dentro do futebol no Amapá, tanto na área amadora quanto na profissional.

Divas

A primeira história que vamos contar é a da equipe Divas, um projeto que incentiva mulheres acima dos 30 anos a jogarem futebol, como forma de resgatar um desejo da juventude reprimido socialmente.

Equipe Divas, em treinamento na zona sul de Macapá

O projeto foi criado em 2016 por Sara dos Santos de Almeida e Dayanne Macedo Coutinho, tendo quatro principais objetivos: a prática esportiva por parte das mulheres, a valorização delas dentro do campo, a formação humana e cidadã e a melhora da qualidade de vida das participantes.

“Nós verificamos que existiam muitas mulheres acima dos 30 e 40 anos que gostavam de jogar futebol e socializar, e pensamos: ‘por que não criar um projeto em que a gente possa valorizar essa mulher junto à sociedade?’. Então nós começamos a utilizar o esporte como uma forma de chamá-las para dentro do projeto, trabalhando a prática esportiva, mas também os princípios de ética, responsabilidade ambiental e outros valores”, contou a presidente da equipe Sara de Almeida.

Os treinos das Divas acontecem todas as quintas e sábados, das 20h às 22h, na Arena do bairro Zerão, na zona sul da cidade. Além de mobilizar a população a praticar o esporte, as 20 associadas da equipe realizam ações sociais e participam de torneios dentro da comunidade.

Segundo Sara, apesar da causa nobre, começar o projeto não foi nada fácil, mas aos poucos as Divas conquistaram o respeito de quem antes as discriminava.

“Logo no início, nós sofremos muita resistência, muito preconceito porque culturalmente eram os homens que utilizavam aquele espaço para jogar bola. Então, foram inúmeras agressões verbais e psicológicas. Ouvimos coisas como ‘o lugar de vocês é em casa cuidando dos filhos, lavando roupa e cuidando dos filhos, não aqui na área’, ou ‘estão tirando nosso horário’. Três anos depois, esses homens agora nos convidam para participar das atividades que eles desenvolvem, hoje eles percebem que nós não chegamos para tirar o espaço deles, mas sim agregar”, contou Sara.

Frutos

O trabalho da Equipe Divas impactou tanto na vida das mulheres da zona sul que algumas delas procuraram seu espaço dentro do esporte profissional.

Cristiane Mendes Rodrigues joga futebol desde sua infância, mas não conseguiu ser jogadora. Ela é uma das Divas e com a ajuda financeira do projeto, concluiu o curso de árbitro na Escola de Arbitragem e passou na avaliação da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), se tornando a mais nova árbitra assistente (“bandeirinha”) do Amapá.

Cristiane no teste que levou à sua aprovação pela CBF

A data de sua aprovação não poderia ter sido mais simbólica: dia 8 de março, Dia Internacional das Mulheres. Segundo ela, sua vitória é especial por conta da realidade enfrentada pelas mulheres no esporte.

Cristiane é uma das 20 mulheres formadas no curso de árbitro de futebol no Amapá, um número que vem crescendo, mas ainda não está proporcional a quantidade de homens na mesma função, assim como os times femininos em relação aos masculinos.

Cristiane atuando como árbitra

“Em relação ao futebol feminino, é muito triste a nossa realidade. Aqui no estado não há um incentivo e investimento contínuo nas mulheres dentro do esporte. Mas, nesse ano a oportunidade me foi dada pelo projeto Divas e como todas as oportunidades que me dão, eu abraço. Eu não tinha ideia que na minha vida eu ia ara essa área de arbitragem, mas decidi fazer. Eu estou super feliz de ter conseguido e espero estrear logo”, disse.

Referência nacional

Nossa terceira história também está relacionada à arbitragem. Marilene Tavares da Matta, de 35 anos, é a primeira mulher a ocupar os cargos, em âmbito local e nacional, de subdiretora da Escola de Arbitragem do Amapá e presidente da Comissão de Arbitragem. Além disso, Marilene ainda é instrutora física da CBF.

Marilene em atividade

A história hoje consolidada de Marilene com a arbitragem surgiu por acaso e assim como em nossas outras histórias, ser mulher e desejar começar alguma atividade no futebol foi uma decisão que trouxe dificuldades.

“Eu fiz o curso em 2013 por curiosidade e como um complemento curricular, porque sou formada em Educação Física, mas eu gostei e virou um hobby e logo comecei a atuar. Já nos meus cargos, a aceitação no início não foi muito fácil porque conduzir a presidência de uma comissão de arbitragem onde a maior parte é de homens foi impactante, assim como a aceitação dos clubes. Eu costumo dizer que não foi fácil, mas também não foi tão difícil, nada que um bom trabalho não possa provar que nós mulheres também somos capazes”, afirmou Marilene.

A presidente ainda argumenta que as mulheres não devem se intimidar com as dificuldades e preconceitos, mas que lutem pelos lugares que desejam ocupar.

Marilene, Cristiane e algumas mulheres da equipe Divas

“A gente ainda luta por respeito. Dentro desse cenário masculino existem muitos preconceitos, eu fico entristecida quando ouço torcedores xingando a arbitragem feminina quando elas não estão fazendo nada de errado, mas só pelo fato delas serem mulheres. Mas quando você gosta do que faz, independente das dificuldades, você vai até o fim, você tem um objetivo a alcançar. Então, às meninas eu digo que ocupem seus espaços e lutem pelos seus direitos”, afirmou.

Mais informações

Divas Futebol Clube: facebook.com/divasfclube/

Curso de Arbitragem: 99147-1042/98108-1490

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