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Crônica: Ponto de parada via Coração

Por: Venilson Costa

Eram quase oito da noite quando chegou a notícia de que Raimundo foi morto durante um assalto a um ônibus.

Na hora, claro, Mariete ficou em estado de choque. Quase desmaiou. Foi amparada por amigos e familiares que chegaram rápido. A notícia já tinha saído no Seles Nafes, no G1 Amapá e naquele programa daquele cara que faz as propagandas da Aurora. Só Raimundo foi morto.
  
Com o andar dos acontecimentos e as descobertas dos fatos, Mariete foi ficando cada vez mais confusa.

O ônibus no qual seu marido foi morto era um Macapá-Santana. Mas Raimundo não costumava pegar esse ônibus. Ele morava no Buritizal e não tinha nenhum parente em Santana. Estranho, pensou. Mas ainda chorava muito por ter perdido o homem que ela tanto amava.

Josicléia, uma vizinha, depois que Mariete ficou mais calma, chamou a colega pra uma conversa.

– Mana, eu sinto muito pela sua perda. Eu sei que esse não é o momento certo pra esse tipo de coisa, mas eu não tô me aguentando.

– Pode falar, mana.

– Eu vi o teu marido conversando com uma mulher que eu não conhecia. Vi isso umas três vezes.

– O que você quer dizer com isso? O Raimundo nunca foi sacana comigo. Sempre foi muito correto.

– Eu sei, mana. Mas eu acabei descobrindo depois… porque foi assim: na terceira vez que eu vi o Raimundo com essa mulher, eles estavam numa parada lá na Tiradentes. Ali passa Macapá-Santana. E por coincidência, a Rute, minha irmã, tava comigo e disse que conhece aquela mulher. E sabe onde ela mora?

– Hum.

– Em Santana. A Rute estuda com ela.

– Mana, eu tô mal com tudo isso…

– Eu sei. Mas eu precisava dizer isso. Você tá aí quase morrendo, chorando por causa de um cara que estava te traindo.

– Eu não tô com cabeça pra isso agora. Mas tu tem certeza disso?

– Tenho. Com certeza estava te traindo, sabe-se lá por quanto tempo.

Raimundo foi velado e enterrado como merecia. 

Ainda lamentando a perda do marido e se perguntando se ele era ou não um canalha, que a enganou por tanto tempo, Mariete teve uma surpresa imensa. Sua mãe, depois de anos e anos morando no interior sem poder vir visitar a filha, apareceu, acompanhada de Julieta, uma prima de Mariete.

Mataram a saudade, lamentaram a morte de Raimundo e Dona Rosalva revelou que o genro estava preparando essa surpresa para a esposa havia quase dois meses. E que no dia em que foi morto no ônibus, estava indo no Porto do Grego, em Santana, buscar a sogra.

Julieta, a prima de Mariete, morava em Santana. Mas elas pouco se viam. Iria encontrar com Raimundo em um ponto e leva-lo até o porto, já que ele não conhecia nada em Santana. Combinaram isso nas vezes em que se encontraram na parada de ônibus na Tiradentes. A Dona Rosalva só apareceu na casa da filha no dia seguinte porque o genro não apareceu para buscá-la.

Raimundo, afinal, era um bom homem.

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