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Conheça a clínica onde dependente químico reabilitado resgata vidas em Macapá

Por: Alice Valena

“Nunca vou desistir”, é o que diz
enfaticamente Allan Rayol Corrêa, um homem alto, de porte atlético e aparência
sadia. Quem o vê por aí não imagina o terrível passado que superou e qual sua
missão hoje em dia. Allan é dependente químico reabilitado.

Limpo há quase cinco anos, Allan hoje
dedica sua vida a ajudar pessoas que não conseguem sair do vício em drogas, por
meio da Clínica Reabilitar, na qual cuida de 65 dependentes químicos, todos
homens, na cidade de Macapá-AP.
“Sei que muitos nem tem tempo de bater
no nosso portão para pedir ajuda”, diz Allan, que enfatiza o aumento no número
de famílias que o procuram (atualmente há 28 pessoas na lista de espera) e
tantos casos de usuários que morrem sem ter conseguido uma chance de
tratamento.
A clínica nem de longe era um sonho
desse paulista de 33 anos que começou a usar drogas aos 14 e, a partir dos 22,
começou o processo de transformação de vida com a internação involuntária. “As
pessoas quando ouvem a palavra ‘involuntária’ remetem logo à violência. Não tem
nada disso. No meu caso foi a melhor saída, pois muitas vezes o usuário é
incapaz de tomar algum tipo decisão”, diz. 
Allan conta que depois de conseguir
parar de consumir drogas passou a ajudar outros dependentes químicos em uma clínica
que tempos depois fechou, porém ele não desistiu e passou a acompanhar as
famílias em suas casas, principalmente ajudando na forma de lidar com os
usuários.
Pela sua empatia e conhecimento dos
métodos e realidades, as próprias famílias atendidas por ele o incentivaram a
abrir um espaço totalmente dedicado isso. “Uma mãe depositou um valor, outra
mãe um valor a mais. Todas me ajudaram e assim, devagarinho, e abrimos a
clínica, porque realmente eu não tinha de onde tirar dinheiro”, lembra. “Ficava
sempre na minha cabeça o que elas diziam, ‘Vai lá. Essa é sua vez. Você já
passou por isso. Confiamos em você’, e isso me motivou”.
A clínica
Hoje a Reabilitar funciona há um ano e
três meses, possui profissionais habilitados para ajudar no tratamento como
psiquiatras, psicólogos, enfermeiras, terapeutas educacionais e educadores
físicos com a prática do jiu-jitsu, entre outros esportes. Mas o que chama
atenção quando se entra na clínica é ver a dedicação daqueles que também
passaram por essa fase difícil da vida.
Alguns rapazes em reabilitação também trabalham junto de Allan e dão suporte aqueles que chegam. “Eles tiram seu
sustento daqui, como funcionários, tudo correto. Isso significa muito para
eles, pois se sentem e são úteis”, explica o responsável pela
clínica.  
Oito jovens não pagam mensalidade (o
que sustenta a casa), pois Allan não conseguiu negar ajuda e diz que sempre tudo
deu certo e nunca faltou nada. “Hoje não tenho como retroceder. Eu convivo com
eles, almoço com eles, converso com eles. Em mim eles enxergam que essa doença
tem cura e eles vão vencer”.
O método
Nos cuidados com os dependentes
químicos na Reabilitar, o objetivo principal é enfatizar que sim, o tratamento
dá resultado, que pode ser demorado e difícil, mas não inatingível, como muitos
pensam.
“O que mais conta para nós é o
resultado. Temos várias pessoas aqui fora limpas, como profissionais de várias
áreas. A clínica é uma espécie de ressocialização. Não queremos saber como ele
entra. Queremos saber como ele vai sair daqui. Isso é o que importa para nós”,
explica Allan.
São 12 os passos a serem seguidos na
Reabilitar para que a pessoa tome consciência da sua situação e inicie o
processo de reação. “Ele observando que pode e vai mudar, já consegue ficar
melhor com a família e manter um bom relacionamento com todos a sua volta.
Geralmente num período de 6 a 9 meses”, explica Allan.  
Os pacientes
Allan pontua sempre que não promete a
cura na clínica, mas promete desenvolver habilidades e instruções para que possam
neutralizar os efeitos do processo de dependência química. Com 34 pessoas
reabilitadas na rua nesse período de quase dois anos, o índice de recaídas é
baixo – 10 casos.
O problema envolve pacientes de várias
gerações. “Temos menores de idade aqui, pessoas que pagam pena, adultos de 30 a
40 anos e senhores de idade mais madura, entre 50 e 60 anos. Tratamos até um
idoso de 80 anos que nunca mais bebeu e que o filho está aqui se tratando
também”.
A procura de famílias de mulheres
dependentes químicas é, infelizmente, em número equivalente ao de homens. Para
poder acolher essas pessoas ele já planeja uma nova clínica com capacidade para
120 pessoas.
A rotina
Como a vida deles sequer possuía uma
rotina, os homens que estão na clínica lidam diariamente com ordem e disciplina
das seis da manhã até as nove da noite, com várias tarefas distribuídas e
afazeres normais do dia-a-dia, como almoçar e jantar em horários corretos.
Outro fator importantíssimo é saber
trabalhar com os sintomas da abstinência, que é um inimigo forte. Por isso o
isolamento trabalha o processo da compulsão, no qual ao decorrer do tempo o
corpo vai se desacostumando dos entorpecentes, o que é doloroso e restringe o
espaço para o mundo do portão para fora.
As famílias
Allan aponta vários fatores para a
dependência química, porém, em toda a conversa não cansa de dizer que a família
é ponto chave de tudo, que os filhos precisam ouvir um não, que os pais hoje em
dia têm medo de “apertar um pouco mais o cerco”.
Segundo o cuidador, os pais muitas
vezes são coniventes com a situação, acham que é uma fase que passa. “Mas não é
assim. A droga transtorna, vicia, transforma, deplora e mata”, enfatiza. “Uma
vez uma mãe me ligou pedindo um resgate involuntário, mas foi tarde, o rapaz
havia falecido”, lamenta.
A família, ressalta, tem acesso a
clínica e sabe tudo o que eles fazem. Também estão em grupos de WhatsApp e
trocam ideias, além de celebrações evangélicas às quartas-feiras, na qual
também interagem.

Um pedido de socorro que salvou
diversas vidas
“Cortei meus pulsos, morei na rua em
frente à farmácias e praças. Eu brigava por tudo”, conta Allan. Agravada pelo
uso de drogas a depressão bateu forte e Allan tentou se enforcar, mas hoje ele
avalia que realmente não queria morrer. “Havia um flexal, uma perna-manca e uma
ripa. Eu coloquei a corda na ripa, por que não fiz isso na perna-manca, né? Eu
não queria me matar, na verdade. Queria chamar a atenção, era um pedido de
socorro”.
A corda arrebentou, mas ele sentiu por
dez segundos uma agonia sufocante de que iria morrer. Seu desespero na época
era grande, porém seu destino era outro.
A recuperação é de um dia de cada vez.
Ele começou a praticar boas ações e a acreditar em si mesmo acima de tudo.
Começou a ajudar pessoas na mesma situação que passou, se aproximou cada vez
mais de sua família e hoje se sente mais que responsável por todas aquelas
vidas lá dentro da clínica. “Minha missão é mostrar para eles que podem mudar o
roteiro de vidas deles com uma atitude simples de dizer não”, finaliza.

Você pode entrar em contato com a Clínica Reabilitar pelo número (96) 99207-3745.

Camila Ramos

Jornalista e profissional de marketing tentando inspirar no mundo um pouco mais de empatia e solidariedade.

Commentário

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  • Não é fácil vencer uma dependência mas com o auxílio certo e lógico muita força de vontade isso é possível sim, mas nunca devemos pensar que isso ocorre do dia pra noite esse processo levar tempo!

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